sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A ética, a cultura e a benquerença perderam um ícone

Na semana passada, ao folhear os jornais do dia, soube da morte do Dr. Ruy Rosado de Aguiar Júnior. Que perda! Tive a sensação de perder um familiar meu. As pessoas mais antigas de Santa Rosa conheceram o Dr. Ruy. As mais jovens, provavelmente não, exceto aquelas ligadas ao mundo jurídico. Eu que o conheci, registro, guardadas minhas limitações, que o ministro Ruy marcou época também em Santa Rosa. Natural de Iraí, na década de 1960, nesta cidade começou a trabalhar como secretário de Administração na gestão do prefeito Carlson; depois foi Advogado, Professor e Promotor de Justiça, afora ter atuado intensamente em ações comunitárias; no Rotary, inclusive.
Ruy, indicado pelo Ministério Público, foi desembargador do Tribunal de Justiça/RS, depois ministro do Superior Tribunal de Justiça. Aposentado, em POA passou a atuar no voluntariado. Ao ser detectada a doença que o levou a óbito, se recusou ser tratado na Santa Casa, da qual era vice-Provedor, por uma razão pouco comum: o temor de que, por essa ligação com a instituição, viesse a receber tratamento diferenciado. Isso tem nome: ÉTICA, valor tão escasso faz tempo. Que exemplo de vida! Que falta fará!
Tive o privilégio de ser aluno do professor Ruy, na cadeira de Direito Constitucional na ex-Fadisa, de Santo Ângelo, quando o deslocamento daqui à faculdade (60 km) era por ônibus, por estrada de chão, no qual viajavam alunos e mestres, entre estes o saudoso Ruy. Como professor, certa feita deu-nos um tema para pesquisa, valendo nota. Um dos colegas, que omito o nome, encontrou um parecer de outro mestre sobre o assunto. Imaginando que ninguém o conhecesse, o copiou “ipsis litteris”. O seu autor, que também omito o nome, ao término do trabalho, com certo pedantismo, sempre concluía seus pareceres com a expressão “Salvante melhor juízo, é meu parecer”. Pois o colega de curso copiou inclusive com o “Salvante ...” Ruy, ao ler a “pesquisa”, percebeu a farsa. Talvez indignado, mas sem perder o humor, consignou conhecer parecer e autor, concluindo com sua peculiar ironia inteligente: “Salvante melhor juízo, a nota é zero”.
Faz tempo que proponho que os filhos de Santa Rosa, naturais ou adotados, destaques fora daqui - e que são muitos, nem todos conhecidos - sejam homenageados quando de eventos locais: Musicanto e Fenasoja ou na Semana do Município. Também proponho que a homenagem se dê em vida. Esclareço: não estou sendo original. A ideia copiei de Cachoeiro do Itapemirim. Na terra de Roberto Carlos, inserido nos festejos do aniversário do município, a cidade capixaba criou “O Dia do Cachoeirense Ausente”.
O presidente Odaylson Eder, da ACISAP, no ano passado, acolheu minha sugestão de trazer para seu consagrado “Almoço de Ideias”, para palestrar, Nery Taborda da Silva - nascido no Laj. Paulino, criado na Vila Planalto - hoje diretor para a América Latina da Cia. Generali de Seguros. Quer dizer, um filho da terra que faz sucesso fora, que poucos sabiam. Santa Rosa, de tantas iniciativas pioneiras, tem essa lacuna a preencher.
Pedindo vênia pela omissão de Santa Rosa à importância do querido Ruy, apresento condolências pelo passamento desse santa-rosense ausente - usurpando prerrogativas do prefeito, mas sei que sem sua oposição - à esposa Diva, sua companheira de sempre; e aos seus filhos Ruy Neto, Juiz de Direito, Alice, Ana e Vera, esta nascida nesta cidade.

Soberania não tem preço, monsieur Macron!

A julgar pelas veiculações da grande imprensa, dos opositores a Bolsonaro e daqueles adeptos ao quanto pior, melhor, os incêndios na Amazônia teriam surgido em 2019. O Papa Francisco, talvez sem problemas interna corpori, já havia convocado o Sínodo dos Bispos para discutir a Amazônia, sem Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa, o que significa em quebra da soberania dos países que a compõem. Sua pauta: “a complexa situação dos indígenas e ribeirinhos; a exploração internacional dos seus recursos naturais; a violência, o narcotráfico e a exploração sexual dos seus povos; o extrativismo ilegal; o desmatamento; o aquecimento global; a conivência de governos com projetos prejudiciais ao meio ambiente.” A respeito, D. José L. Azcona, Bispo Emérito do Marajó - região amazônica, “a Amazônia, ao menos a brasileira, não é mais católica”, referindo-se à agenda católica. Já o Pe. Zezinho, que evangeliza há décadas através de suas belíssimas canções, disse: “Continuarei a cantar a ‘Amazônia, é Proibido Queimar e Matar’, mas sei que tudo não começou apenas há seis meses ... Não votei nele, nem no Haddad, mas se Haddad tivesse ganho, os incêndios continuariam, até porque o país não tem como controlar o clima nem a maioria dos incendiários que querem tudo, menos que atual democracia dê certo... Eu não odiava os outros presidentes e não odeio Bolsonaro.”
Por outro lado, não se pode ignorar o interesse mundial pela Amazônia, em especial pelo seu subsolo, que se sabe, prenhe de ouro, estanho, nióbio, petróleo, gás natural, potássio, calcário, manganês, ferro, diamante, cromo e urânio, há muito explorado, ilegal e irracionalmente, com a conivência de ONGs que lá atuam e de indígenas. Por isso, é importante a discussão proposta por Bolsonaro, de exploração racional da região. A propósito, os índios, sobre suas reservas no território amazônico, têm mero usufruto. Assim, segundo seus usos, costumes e tradições, podem caçar e pescar, fazer roça, extrair lenha e alimentos - para sua comunidade. Já o subsolo, por ser da União, pode ser objeto de concessão, tendo os índios, também, direito a parte dos seus lucros.
A diferença das queimadas de 2019 para as queimadas anteriores, está na honestidade dos que as veiculam. A grande mídia, quando bem paga pelo governo, limitava-se a breves registros; agora, Bolsonaro é o vilão. Já o protesto de artistas, é retaliação à perda da teta da Lei Rouanet, a partir de Osmar Terra ministro de Estado. Outrossim, os ataques do presidente da França ao presidente do Brasil, carregam vícios de origem. O presidente Macron, com popularidade baixa e buscando reeleição, usa a recorrente tragédia amazônica para proteger interesses comerciais dos agropecuaristas franceses, na concorrência aos nossos. Em suma, prepara o terreno para não assinar o Acordo União Europeia e Mercosul, porquanto, assinando-o, terá de retirar os subsídios que o país dá à sua produção primária. Já os R$ 90 milhões ofertados, o Brasil deve aceitar. Nunca, porém, sob condição. Soberania não tem preço, monsieur Macron!
O Brasil tem unidades de conservação, áreas de preservação, parques e reservas indígenas, mas sem estrutura e gestão. Por isso, a Amazônia registra desmatamento criminoso, 500 garimpos ilegais ...Assim, lá com ONGs ou sem, é hora da transparência.

Exportando trabalho e beleza

O Paraguai, como um todo, mas, em especial, a Região separada do Brasil pelo Rio Paraná nas proximidades da Hidrelétrica Itaipu recebeu, nas últimas três décadas, muitos agricultores gaúchos, catarinenses e paranaenses atraídos pela qualidade das suas terras e clima e pela facilidade na compra do bem fundiário. Da Região Noroeste/RS, trabalhadores rurais venderam seu patrimônio, em geral reduzido a poucos hectares de terras exauridas, para se arriscarem em outro País como fizeram no passado gaúchos rumo, 1º ao Paraná, depois ao Mato Grosso, e muito antes, da Europa para a América do Sul, famílias italianas, alemãs etc. Hoje, o Paraguai, graças aos brasileiros que o adotaram como sua Pátria, cresce mais que o Brasil e a Argentina. Só o cultivo da soja ocupa mais de 3 milhões de hectares, sendo que cerca de 70% dessa área está nas mãos de brasileiros desde a abertura do governo paraguaio, a partir da década de 1970. Em 2018, o Paraguai produziu 9,2 milhões de toneladas de soja.
A instabilidade política que se instalou no País durante o governo Fernando Lugo - aquele ex-Bispo, também conhecido como reprodutor, que, segundo veiculou a imprensa na época, se valia da sua condição de autoridade religiosa para copular com indiazinhas pobres, afastado do poder, em 2012, por um processo de Impeachment, em função das disputas entre os sem-terra nativos, incentivadas pelo então presidente, com os brasiguaios, na Região do Alto Paraná - é coisa do passado. O atual presidente, Mario Abdo Benítez, do partido Colorado, o mesmo do ex-presidente (ditador) Stroessner, apoia a permanência de brasileiros em seu País e os incentiva no desenvolvimento da agricultura e de outras áreas. E os brasileiros e/ou seus descendentes contribuem para o crescimento do Paraguai. Outrossim, nossos gaúchos fizeram do vizinho País uma extensão do RS, tantos são os CTGs por lá implantados.
De Santa Rosa, dezenas de famílias saíram em busca de vida nova no Paraguai, quando ainda não havia estradas, nem máquinas agrícolas e nem financiamentos para investimentos e custeio à produção primária. Hoje, muitas têm novas famílias lá constituídas, as brasiguaias. Entre elas, os Lottermann e Tolazzi, que deixaram o Laj. Pessegueiro na década de 1980 - lugarejo, este, do interior de Santa Rosa, que marcou época nas décadas de 1960/70, no futebol, com o Guarani, e com o moinho e serraria do Benvindo Tolazzi, movido pela água do Rio Pessegueiro (ah, que saudade do tempo que as margens dos rios tinham cobertura vegetal!) - para se estabelecerem em Santa Rita, então com apenas nove casas, muito diferente de agora com 50 mil habitantes, 90% de brasileiros ou seus descendentes, entre eles a hermosa KETLIN - filha de Itamar e de Vera Lottermann, neta de Ivo Lottermann e de Clair Tolazzi, esta filha do casal meu amigo, com orgulho, Benvindo e Dileta Tolazzi - há pouco eleita MISS PARAGUAI/2019.
Ketlin não nasceu em Santa Rosa, mas os espermatozoides e os óvulos dos seus avós e pais se desenvolveram na terra do Musicanto, Tapeporã, Fenasoja, Indumóveis e Hortigranjeiros. Parabéns à Miss Paraguai, fisioterapeuta por opção, beleza pela mão escultural do Arquiteto do Universo e cultura e princípios sedimentados no exemplo das famílias Lottermann e Tolazzi. Sucesso, Ketlin, no Miss Universo em dezembro, EUA.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Onze semideuses

Felipe Recondo e Luiz Weber lançaram o livro Os Onze. Pela sinopse, conheceremos a face oculta do STF e dos seus 11 ministros. Já sabemos muito, mas nem tudo. Sabemos que em 2018 Luís R. Barroso, provocado por Gilmar Mendes, disse-lhe: “Você é uma pessoa horrível. Uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”; que Gilmar, ao saber que ele e Toffoli estavam na mira da Lava-Jato, contra-atacou dizendo “Se a Lava-Jato faz isso com a Corte, o que não faz com as pessoas”? Não, ministro, a Lava-Jato nada fez contra pessoas do bem, muito menos contra a Corte; apenas buscou informações sobre malcheirosos ministros. Outra: que Alexandre de Moraes (ex-PSDB) suspendeu uma fiscalização de 134 contribuintes pegos na malha fina - entre eles, Gilmar, por “não haver irregularidade”. Ora, se os dados são sigilosos, como concluiu nada haver? Vossas Excelências - Gilmar, cria do Sarney; Toffoli, cria do Lula; e Moraes, cria do Temer - não estão acima da lei. Enfim, saberemos quantos ministros resistiriam à divulgação de gravações de suas conversas com advogados que atuam no STF.
Antes do Petrolão, foi o Mensalão do PT. Na época, Gilmar acompanhou o Relator, Joaquim Barbosa. Postura também favorável à sociedade teve quando o STF discutiu prisão a partir da condenação em 2º grau. Agora, ao serem atingidos seus amigos (MDB/ PSDB), Gilmar mudou. Mas, antes, já afrontava a sociedade: em 2008 mandou soltar Celso Pitta, Naja Nahas e Daniel Dantas - condenados por desvio de verbas públicas, bem como arquivar investigação a José Serra e Pedro Parente; em 2009 concedeu HC a Abdelmassih, acusado por mais de 50 crimes sexuais, e liberou Marcos Valério. Também, ao trocar farpas com Joaquim Barbosa, deste ouviu: “Vossa Excelência está destruindo a Justiça”; em 2014 criticou o TSE por negar registro ao impoluto candidato Maluf. Em 2016 devolveu ao procurador-geral da República pedidos de investigação contra Aécio e pediu cautela na aplicação da Lei da Ficha Limpa, dizendo: “estamos dando para instituições poder que elas precisam para fazer chantagem”; em 2017, em menos de uma semana, soltou Eike Batista condenado (Lava-Jato) a mais de 30 anos.
Já a decisão do STF, negando a transferência de Lula para Tremembé, é sintomática. Tem sabor de aperitivo para um lauto jantar: acabar com a Lava-Jato. Somos todos iguais - porém, para capas-pretas do andar superior, pelos favores que devem a quem os nomeou, e todos que os nomearam (Collor, Sarney, FHC, Lula, Dilma e Temer) têm rabo preso - alguns são mais iguais. Logo, o próximo capítulo será anular os processos paridos pela Lava-Jato. O pretexto - sem base jurídica - seriam as conversas Moro e Dallagnol. Em suma, adversários e, até, inimigos se juntaram por uma causa comum: destruir a Lava-Jato, cujo objetivo final, embora neguem, é, para: o PT livrar Lula, J. Dirceu ...; o MDB livrar Temer, Sarney ...; o PSDB livrar FHC, Aécio ...; o Congresso, livrar Collor, Renan, Gleisi, Jacques; Gilmar, Toffoli, Moraes ... defesa em causa própria.
Alheia aos casos acima, é comovente a situação do min. Toffoli: ganha R$33 mil/mês e paga à ex-mulher R$50 mil/mês. Para cobrir a diferença e viver, tornou-se dependente da atual mulher, a advogada Roberta Mª Rangel (que tem entre os clientes Queiroz Galvão e Andrade Guterrez - Petrolão), da qual recebe uma mesadinha: R$100 mil/mês.

Objetivo alcançado

Meu objetivo ao escrever o artigo “O filho não, presidente!” - suscitar discussão sobre nossas embaixadas - foi alcançado. Muita gente me cumprimentou, dizendo que nunca antes pensara sobre o tema. Secundariamente - menos mal - alguns me empurraram à direita. Para me situar, invoco artigo que já publiquei, inclusive no meu 2º livro (p. 19):
“Etimologicamente, esquerda e direita nada têm a ver com o conceito atual. Nasceram com a Revolução Francesa quando os aliados do Rei se sentavam à direita do presidente da Assembleia e a oposição Republicana, à esquerda. Em suma, o que nasceu como ocupação física passou a ser espaço ideológico. Já, trafegando da teoria para a prática, como diz(ia) Paulo Santana, aí é que “preteia o olho da gateada”. Exemplos relacionados com alguns ex-prefeitos da Santa Rosa: 1) Giovelli (1969-1972) criou o Mutirão... O projeto decorreu da formação do então prefeito, à época recém graduado pela FaFi (embrião da Unijuí), da qual seus mestres eram religiosos de formação humanística. O Mutirão, um programa de esquerda, tem um porém: Giovelli, eleito pela Arena, é tido como de direita; 2) Erni (1983-1988) criou o Musicanto. Não foi dele ideia do festival, mas a abraçou e fez do evento tribuna de todas as tendências - nas canções e no palco. Sua 1ª edição foi vencida por uma canção de protesto ao Regime da época, “No Sangue da Terra Nada Guarani”, de Nelson Coelho de Castro: “Um grito de guerra/prá salvar a terra/para por os ‘gringos’/prá fora daqui”. Na 2ª edição, presidida por Alcides Vicini, então vice-prefeito, o destaque foi a presença da ativista comunista Mercedes Sosa. Quer dizer, o Musicanto é construção de esquerda. Só que também carrega um porém: o saudoso Erni e o atual prefeito (5ª vez), presidente do 2º Musicanto, foram da Arena, PDS, PP. Por isso, ambos considerados de direita; 3) Julio (1997/2000), militante da esquerda da adolescência até seu prematuro passamento, foi eleito pelo PMDB coligado com o PDT e PPS. Contrariando sua origem e os partidos que o elegeram, o saudoso prefeito tinha alergia pelo Musicanto. De Santa sa vou para Cuba e Chile. Os ditadores Fidel (esquerda) e Pinochet (direita) cometeram atrocidades. No caso, existe diferença entre esquerda e direita? Nenhuma, salvo para quem ditador de esquerda é bom e de direita é mau, e vice-versa.”
Volto ao ponto: 1) Vivo o Musicanto desde sua gestação; 2) sou contra o aborto - a esquerda é a favor; 3) sou contra a pena de morte - a direita é a favor; 4) defendo Moro - líderes da esquerda e direita são contra porque, entre os punidos pelo ex-juiz, estão seus corruptos de estimação. A propósito, M. Vargas Llosa (Prêmio Nobel de Literatura, defensor de Fidel Castro no início, crítico depois), sobre a Lava-Jato, diz: “não haveria punição dos cúmplices não houvesse um juiz fora do comum, Sérgio Moro, que abriu a caixa de Pandora”, acrescentando “aliás, é um milagre que ainda continue vivo”.
Entre esquerda e direita, prefiro a voz da consciência. No entanto, se fosse obrigado a escolher, ficaria com a direita, porque a esquerda é preconceituosa. Exemplo: Marco Pollo Giordani (natural de Pessegueiro, S. Rosa - advogado e escritor) teve, com sonegação de motivo, negada sua inscrição na OAB/RS, só a obtendo via Justiça. Motivo: quando militar, cometeu o “crime” de ser do Serviço de Inteligência (Regime/64).

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Socorrendo-me da Neurociência

Em homenagem ao Dia da Paz (25/7) invoco a Oração, com o mesmo nome, da Igreja Católica “Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima Vossa Igreja”, para lembrar que errar é humano; persistir no erro, não. Pois bem. Há pessoas que, possuídas de bloqueio cognitivo, jamais se penitenciam. Como ilustração, confessarei escolhas que já fiz, as quais nunca repetiria. Votei em: Jânio (1º voto) crente de que seu símbolo de campanha, a vassoura, era para varrer sujeira; Collor fiado em seu discurso contra marajás; Aécio acorde com seu discurso de combate ao Mensalão; Olívio (gov.) pela seriedade e autenticidade. Quanto aos candidatos a presidente, após as eleições, eleitos ou não, todos convergiram para um ponto comum: a mentira. Quanto ao candidato a governador, meu encanto foi para a Bahia junto com a Ford. Eu caí na real. No entanto, tenho dificuldade de entender por que nem todos reconhecem seus equívocos. A resposta encontrei na Neurociência (estudo do sistema nervoso central, não é o Dr. Norton Goulart?), a qual explica que certas pessoas têm bloqueio cognitivo, isto é, adquiriram conhecimentos, mas, para elas, argumentos lógicos são sufocados por credos e valores, ainda que estes não correspondam à verdade. É uma blindagem que pessoas armazenaram, sintetizadas em: 1) isolar quem tem opinião contrária; 2) ler e ouvir apenas aquilo que conforta seus valores e credos; 3) repetir chavões mentirosos (tática de Goebbels – assessor de Hitler: a mentira reiterada vira verdade) à exaustão.
Minha curiosidade - inclusive para com pessoas do bem – era sobre esse cenário de idolatria a pessoas incontroversamente corruptas. Pois, através da Neurociência, creio ter encontrado a resposta ou, ao menos, estar nas suas pegadas: são pessoas, como a psicologia de massa explica, com mentes que evoluíram muito mais para se imunizarem pela fé em valores e credos do que para separarem a verdade - que devemos exaltar - da mentira - que temos o dever de condenar. Exemplo: as conversas entre Moro e Dallagnol hackeadas, para essas pessoas constituiriam crime, quando crime é o vazamento delas, já que obtidas ao arrepio da lei, cujo conteúdo, até aqui conhecido, revela só preocupação do ex-Juiz e do Procurador da Lava-Jato com o bem coletivo.
Outro exemplo de imunização cognitiva: difundiu-se, pelo viés ideológico, a ideia de que, ao se privatizar, o povo perde o bem que tem. Ora, quando o Poder Público privatiza uma empresa, o valor arrecadado é canalizado - pelo menos assim deve ser - para prioridades públicas. Já a empresa alienada continua gerando empregos, tributos etc, com uma diferença: com eficiência. De certa forma, o público que se tornou privado, público continuará. Às vezes, mais público do que antes, quando os “donos” desses bens eram chamados, apenas, a ministrarem a “extrema-unção” à estatal ineficiente.
Roberto Campos, pessoa das mais cultas que conheci, dizia que a Petrobras era um “Petrossauro”. Depois do Mensalão e do Petrolão, que outro adjetivo o saudoso economista acrescentaria? ... Cá entre nós, salvo exceções, defendem estatais: 1) seus funcionários; 2) os sindicatos das respectivas categoriais; 3) os políticos que têm nelas currais eleitorais. Já ao povo, destinatário dos frutos dos bens públicos, sobram: a) a ilusão de ser dono e b), salvo raras exceções, a conta do empreguismo e da ineficiência

O filho não, presidente!

Certas coisas não podem ser feitas, ainda que não tenham óbice legal. Para Tancredo Neves, não se nomeia quem não se pode demitir. A máxima mineira me veio à mente com o anúncio do presidente Jair Bolsonaro da nomeação de seu filho, Eduardo, Embaixador nos EUA. É que, embora servidores em cargos de confiança sejam sempre demissíveis ad nutum, no caso criaria um problema familiar. Já, no mérito, o presidente incide na política velha. Mas como toda moeda tem dois lados, dessa nomeação vou realçar seu lado positivo, qual seja, trazer à baila assunto que tem passado batido: o papel de embaixadas. Do limão, limonada. Pois bem. O Brasil é o país da América Latina com o maior número de embaixadas no exterior. São 138, sendo 44 instaladas no governo Lula, algumas em países que poucos ouviram falar: Botswana, Malawi, Belize, Omã, Díli, Burindi, Lesoto, Palau, Kiribati, Vanuatu. Dessas 44, Bolsonaro desativou cinco: Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Névis, Dominica, São Vicente e Granadinas e Granada. Com a criação (44) e, agora, redução (cinco), mudou alguma coisa para o Brasil? Não. Outrossim, cada embaixada custou ao País, de 2008/2017, R$ 9 milhões.
A criação de embaixadas na era Lula, tendo à frente o ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, foi para satisfazer a vaidade do ex-presidente: ter assento no Conselho de Segurança da ONU, posição que, para o Brasil, nada mudaria. Mas, acerca do funcionamento de embaixadas, o que me leva a indagar, é: no mundo globalizado, com as comunicações colocando em contato pessoas que residem em pontos extremos do Planeta, ainda se justificam? E o ministério das Relações Exteriores, para que serve? Ora, tal como acontece com órgãos estaduais regionais (educação, saúde etc), perderam a razão de ser. Ademais, seu custo é absurdo. Com um orçamento superior a R$ 2,2 bilhões, o ministério das Relações Exteriores gasta por ano, só com servidores das embaixadas, R$ 800 milhões; outros R$ 400 milhões são gastos com manutenção dessas estruturas. Mas não só: o ministério das Relações Exterioresembora caixa-preta, como revelou a Folha de SP, em 2014, o aluguel da casa do embaixador Guilherme Patriota, irmão do então ministro das Relações Exteriores Antônio Patriota, em Nova York, custava ao país a “bagatela” de R$ 54 mil/mês. Outro desperdício: em Roma, na Itália, em área nobre, o Brasil mantém duas embaixadas: uma na Piazza Navona, num suntuoso prédio com teto banhado a ouro, outra, pertinho, no Vaticano.
Por outro lado, as questões afetas às nossas exportações (soja, milho, arroz, café, carne, minério, calçados) são tratadas pelo ministro brasileiro de cada área com seus colegas de outros países e/ou pelas entidades representativas de cada setor produtivo. Quer dizer, não dependem de embaixadas. Portanto, se desativadas - mantendo uma, quem sabe, por Continente - permitiriam dispensar mais de 100 prédios, 1.565 diplomatas, 1.613 oficiais-chanceleres e assistentes, 441 servidores, terceirizados, impostos etc. Ora, governar é fazer opções. A minha sugestão (opção) coloco em discussão: desativar esses órgãos caros e inertes e priorizar educação, saúde ... Ah, sei! Desativar órgãos públicos é crime - embora cabides de emprego. Ademais, são “patrimônio histórico”, pois nossa 1ª representação no exterior é de 1824 (Washington).