segunda-feira, 11 de março de 2019

DEU PRÁ TI, MÃO BOBA!

Mão boba é aquela mão que o galanteador, achando-se um “Don Juan”, movimenta sorrateiramente. Ou seja, de boba não tem nada. É a mão que o homem - às vezes, a mulher - discretamente passa na pessoa do sexo oposto próxima, e dependendo da reação da pessoa “acariciada”, intensifica sua ousadia. Para uns, é uma aposta tipo “vai que cola”; para outros, é safadeza. Só que, a partir de setembro de 2018, por força da Lei 13.718, gestos obscenos deixaram de ser contravenção para ser crime. Portanto, acabou a brincadeira. Agora, o que era importunação sexual - desculpável com o clássico “desculpe, foi sem querer”! quando rejeitado - tornou-se crime sujeito a prisão de um a cinco anos, isto se o ato não constituir crime mais grave. O advérbio de negação deixou de ser um não tímido, acanhado, com cara de sim, para ser um não de negação. Agora, não é não sem concessão.
Antes da nova lei, a mão boba era ato de importunação a pessoas do sexo oposto, isto é, infração leve sujeita a multa insignificante e prisão de 15 dias a dois meses. Agora não. É a lei protegendo a dignidade sexual através da elevação da pena. É certo endurecer contra quem desrespeita a dignidade alheia. No entanto, tanta proibição também poderá produzir outro efeito: inibir a pessoa de externar inocente toque ou galanteio. A timidez acompanha o ser humano. Então, temendo ser condenado se avançar o sinal definido pela nova lei, o acanhamento poderá aumentar o distanciamento entre pessoas. Ora, o relacionamento amoroso não se perfectibiliza em atos formais ou carrancudos, salvo arranjos dos pais, irmãos ou clás, mas pela conquista, que não significa ganhar do outro, mas ganhar o outro.
É justo punir com rigor quem desrespeita seu semelhante. No ônibus, no trem, homens despudorados esfregam-se em mulheres. No popular, coxeiam. No entanto, o elemento subjetivo do crime é o dolo - vontade dirigida a satisfazer a lascívia própria ou de terceiro, que não compreende o ocasional esbarrão. Impõe-se seja um ato que satisfaça o agente ao mesmo tempo em que o autor ofende a liberdade sexual da pessoa esbarrada. Enquadramento, aliás, que ainda dará pano para manga. Por outro lado, como fica o incitamento a práticas libidinosas incorporadas à nossa cultura, nas festas populares?

Como este foi o 1º carnaval pós mudança, é precipitado avaliar. Mas é certo o conflito cultural entre passado e presente provocado pela nova lei. Máscara Negra (Zé Keti/Pereira Matos), marchinha de carnaval de 1967 ainda sucesso, que incita ao abraço e ao beijo lascivos, está em descompasso com a nova lei. Diz: “Foi bom te ver outra vez, Tá fazendo um ano, Foi no carnaval que passou/ Eu sou aquele Pierrô, Que te abraçou e te beijou, Meu amor”. Refrão: “Vou beijar-te agora, Não me leve a mal, Hoje é carnaval”. Como se constata, incentiva o beijo roubado porque, sendo carnaval, seria permitido. No entanto, a norma que “Tipifica os crimes de importunação sexual” equipara o beijo roubado ao estupro - com minha discordância quanto ao tipo penal, mas é o que está valendo até a Justiça definir seu limite.

A Lei 13.718/18 nasceu da conduta de homens que, em transportes públicos, esfregavam seu órgão sexual contra o corpo de vítimas, masturbavam-se e, às vezes, ejaculavam no embalo de ônibus e trens - até então sem punição correspondente. Apesar do exagero na tipificação delituosa, pois saiu da contravenção para o dolo, a partir de 09/2018 deu prá ti, mão boba! Máscara Negra é, hoje, canção censurada. Lisonja, com cautela, sim, ainda pode.

A REFORMA TRABALHISTA

Muita coisa mudou nesse pouco mais de ano de vigência da reforma trabalhista implantada pelo governo Temer. Para alguns, as mudanças foram benfazejas, inclusive para os empregados a despeito da reação dos seus sindicatos; para outros, foram nocivas, favoráveis apenas aos patrões. Há, em qualquer das posições, ingredientes de corporativismo. Logo, ambas as posições devem ser recebidas com reservas. O Brasil é o País do corporativismo, inclusive, e acentuadamente, no serviço público, que seus sindicatos tratam - em verdade, privilégios - pelo simpático nome de avanços – v.g., licença-prêmio a cada x anos de trabalho; triênios e quinquênios por tempo de trabalho; adicionais por anos de atividade etc – que inexistem na iniciativa privada. Mas não é sobre a liberdade negocial que a reforma trabalhista trouxe para as relações de trabalho que hoje quero falar; é sobre o estrangulamento do movimento sindical provocado pela Lei № 13.467/17, em vigorar desde 11/11/2017, por conta do golpe nos sindicatos com a eliminação do imposto sindical compulsório.
O Brasil é o País dos Sindicatos. São, ao todo, 12.200 apenas de empregados, além de centrais, confederações e federações. É que, abrir um sindicato, assim como criar um partido político, era (é) um dos melhores negócios no Brasil. A propósito, o Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) tem 168 sindicatos; a Argentina, 91; os EUA, 90 – incluídas as entidades patronais. Ah, tem mais, do outro lado do balcão estava o Ministério do Trabalho, que os partidos políticos disputavam com unhas e dentes até a chegada de Bolsonaro ao poder, para desespero do PTB, porquanto era quem emitia cartas sindicais. Ocorre que uma carta (mesmo que do sindicato dos cuspidores, por exemplo) valia, dependendo do caso, alguns milhões.
CUT, Força Sindical e UGT em 2017 arrecadaram, cada uma, em torno de R$ 50.000.000,00. Isso em período de recessão sem precedente. Muito mais, portanto, em época de pleno emprego. Porém, com a queda da cobrança compulsória (desconto obrigatório do valor correspondente ao um dia do salário por ano de trabalho, por trabalhador) a arrecadação caiu, em 2018, para 10%. Quer dizer, 90% dos trabalhadores não concordavam com o desconto para centrais, combustível que transformara suas entidades em cabides de emprego e longa manus de partidos políticos - a CUT, a serviço do PT; a Força Sindical, a serviço do SD; a UGT, franco-atirador (ou franco negociador?) nas campanhas eleitorais.
Sentindo o impacto da entrada em vigor da reforma trabalhista, sindicatos e confederações já tinham movido mais 15.000 ações pedindo a inconstitucionalidade do fim da cobrança obrigatória. O Supremo Tribunal Federal, no entanto, declarou constitucional a mudança e, assim, manteve o fim da cobrança compulsória. Foi um balde de água fria sobre os sindicatos, tendo por principal argumento aquele não dito: o dinheiro arrecadado servia, a maior parte, a interesses escusos. Agora, terão de se adequar, reduzindo mordomias, cortando campanhas eleitorais, vendendo bens etc.
Enfim, a reforma trabalhista do Temer modernizou o País, no que se refere às relações do trabalho, e pôs freio no peleguismo sindical. É o maior legado do Temer

MORINGA NA FENASOJA

Percalços são mornais na implantação de ideias ou projetos novos. É o caso do projeto Moringa em parceria com a Fenasoja (Elias Dallalba, presidente, e Cleo Rockembach, secretário), tendo por local o Parque Alfredo L. Carlson. Como é sabido, vaticinar que essa ou aquela iniciativa não dará certo, é mais fácil do que criar ou fazer acontecer. Os derrotistas estão de plantão para, em eventual insucesso, afirmarem: “Eu avisei”. Alinho-me, porém, aos que preferem errar fazendo do que acertar pelo acaso. É o exemplo da água: na queda ganha força. Itaipu é um caso. O Rio Paraná, no leito normal, não tinha força. Represado, passou a ser líder mundial na produção de energia (2,6 bilhões/MWh), suprindo 15% da nossa demanda e 90% do Paraguai.
Minha queixa, com um misto de desabafo e prestação de contas, diz respeito com a implantação do projeto Moringa (plantio dessas árvores no Parque de Feiras), ideia que me encantou, ora em desenvolvimento com a participação, ainda, do Agrônomo Vione da Emater, do Secretário da Agricultura Eisen e do indigenista Homero Pinto, mas que tropeçou na nossa inexperiência, o que é compreensível. Afinal estamos lidando com coisa nova, e todo o novo sujeita-se a aprendizado. Como ensina Mário Sérgio Cortella, sendo também título de um dos seus livros, “Não Nascemos Prontos”.
O local escolhido para receber árvores moringas (Parque Municipal) se revelou inadequado. Além disso, pragas desconhecidas destruíram as primeiras plantinhas levadas à terra. A solução foi, 1º, recuperar o solo; 2º, detectar os inimigos das frágeis árvores. Adversidades, estas, porém, que não nos fizeram esmorecer. Pelo contrário, o projeto avançará porque está em jogo mais do que plantar árvores - que por si só já justificaria toda e qualquer parceria - mas o plantio da “árvore da vida”.
Veiculado, o projeto vem repercutindo além da Fenasoja, a ponto de não ser exagero se afirmar que, na sua próxima edição, será atração, quer como novidade, quer como expectativa de nova fonte de alimento humano e animal. Sobre o projeto - plantar árvores, e que árvores! -, quando me perguntam, digo: nasceu da conjunção de dois fatores: a) amor à natureza; b) inconformidade com a mesmice. A propósito, segundo Guimarães Rosa, “o animal satisfeito dorme”. Concordo. É que, aceitando as coisas como elas estão, o homem (com a barriga cheia) equipara-se a um animal saciado.
Sobre o projeto Moringa/Fenasoja recebi muitas mensagens, destacando: Norton Goulart, neurologista - “Lembro do Juarez Guterrez. Lembro que ele plantou todas as árvores das calçadas de Santa Rosa. A grande diferença entre ele e o Aquiles é que no caso o Juarez - que conheci - plantar era sua atividade profissional. No caso do Aquiles é apenas por amor à natureza - não ganhando nada com isto, a não ser o prazer de ver o mundo mais verde”; Maurício Coas, corretor de imóveis - “Um ilustre cidadão, sou fã e tenho carinho pelo nosso advogado. O prefeito dos sonhos para Santa Rosa”; Cel. Talmo, ex-comandante do 19º RCMec - “O Dr. Aquiles Giovelli, sem dúvida nenhuma, é gente que faz!” Essas e outras manifestações - descontado, é claro, o exagero próprio dos amigos nos encômios - registro-as como o combustível para prosseguir e o despertar de consciência em defesa do agredido meio ambiente.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

AS BRUMAS DE BRUMADINHO

Em 2015, foi o rompimento da barragem de Mariana com um saldo de 19 mortos, destruição de uma vila de pessoas humildes e de lavouras, contaminação de vários rios, o principal, o Rio Doce que nasce em Minas Gerais, cruza o Espírito Santo e deságua no mar. Na última sexta-feira26, foi o rompimento da barragem de Brumadinho, também em Minas Gerais. Mais uma vez, barragem de rejeitos industriais pertencente ao grupo econômico Vale do Rio Doce. O saldo dos dois desastres: vidas ceifadas, meio ambiente devastado e prejuízos materiais de monta. Pior é que, pela repetição do tragédia em Brumadinho, para nada serviu a tragédia de Mariana.
Mas, o mais grave de tudo, é que a tragédia de Brumadinho era previsível. Portanto, poderia ter sido evitada. Logo, está-se diante de um crime que vai além da culpa – que, neste caso, se caracterizaria por imperícia, imprudência ou negligência - para ancorar no dolo eventual, porquanto, empresa e autoridades vinculadas à barragem, embora sem o desejar, assumiram o risco pelo trágico resultado. Depõe, ainda, contra a Vale ser o 2º acidente em curto espaço de tempo, em circunstâncias semelhantes, o que demonstra que nenhuma cautela foi tomada para afastar o risco que rondava e ronda, sabe-se lá, quantas Marianas e Brumadinhos pelo País.
O Brasil, que já pagou duas vezes pelo mesmo erro, não poderá pagar pelo terceiro erro nada inocente. No entanto, também não é razoável responsabilizar Bolsonaro e Zema pelo acidente de Brumadinho, haja vista que estavam investidos dos respectivos mandatos executivos federal e estadual fazia menos de um mês quando do acidente. Já o mesmo não se poderá dizer em relação a Dilma/Temer (ex-presidentes) e Pimentel (ex-governador), posto que os ex-presidentes e ex-governador estavam no exercício dos seus mandatos quando da tragédia de Mariana (05/11/2015) e depois.
Por outro lado, o País dá sinais de mudanças. Tomara! É como indicam algumas medidas sobre o acidente: força tarefa; prisões; bloqueio de R$ 11 bilhões; presença do governo no local; criação do Conselho de Respostas a Desastres; revisão das barragens. Outrossim, Bolsonaro, que ameaçava desativar o ministério do Meio Ambiente e rever o Acordo de Paris, no episódio de Brumadinho deu uma louvável guinada: mostrou-se defensor do meio ambiente, decidido e solidário com as vítimas.
Mas por que, com Brumadinho, a repetição de Mariana? Porque o crime compensa. Se a Samarco e seus responsáveis tivessem sido condenados pelo acidente de 2015, a tragédia de 2019 provavelmente não teria ocorrido. A propósito, Delfin Neto dizia: “A parte mais sensível do homem é o bolso”. Como no episódio de Mariana, a Samarco, controlada pela Vale, nada indenizou, temos agora a repetição de tragédia, agravada.
O Rio Doce, passados três anos da 1ª catástrofe, continua com a água imprópria para consumo e os peixes que sobreviveram, contaminados. O quadro da dor ensina que meio ambiente não é papo só de ambientalistas, mas compromisso de todos com a vida; que não é tese de sectaristas de esquerda ou direita, mas tese sem ideologia.
As brumas de Brumadinho são as brumas do Brasil: da propina, do oportunismo, do jeitinho ..., mas também da indignação conforme recado das eleições a presidente/18.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

SIRVAM-SE, O VENENO ESTÁ NA MESA

Os agrotóxicos - defensivos agrícolas, para uns; venenos, para outros - são aplicados em profusão na nossa agricultura. Para os primeiros, esses produtos químicos são aliados dos produtores. Para os últimos, são inimigos. Ambas as correntes têm suas razões. Então, o que seria certo ou seria errado? Bem, antes de emitir opinião, algumas ponderações sobre os benefícios fiscais dos agrotóxicos na produtividade: o agronegócio é responsável por 23% do PIB, 37% dos empregos e 48% das exportações, graças aos quais temos superávits da balança comercial. Assim, é questão de escolha, às vezes sem opção. A minha opção é pela saúde, pois, conforme Santo Inácio de Loyola no “diálogo” com São Francisco Xavier, “que adianta o homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma”. Parafraseando o fundador dos Jesuítas, digo: que adiante o homem ganhar o mundo se perder a sua saúde.
Faz alguns anos, um cliente meu que produzia tomates e, também, revendia o produto que trazia de Veranópolis, às vezes me obsequiava com uma caixa do fruto, e dizia: “esse tomate você pode comer sem lavar. É da minha produção. Já o tomate que busco na Serra, eu não como”. No ponto, a Europa é mais consciente do que o Brasil. A União Europeia baniu das suas lavouras, entre outros, o Paraquate, a Atrazina e o Acefato, substâncias entre as mais vendidas aqui - em 2017, mais de 60 mil toneladas. O Paraquate é, comprovadamente, trágico à vida. No País, mesmo classificado pela Anvisa como altamente tóxico, só sairá das prateleiras em 09/2020.
Nosso sistema agrícola - aliás, muito bem sucedido - é dependente de agrotóxicos. A Embrapa dispõe de novos ativos tecnológicos voltados ao mercado de defensivos agrícolas naturais, mas trabalha com parcos recursos para a pesquisa. Já a Universidade de Illinois (EUA) conseguiu turbinar a fotossíntese, acelerando, assim, o ciclo de vida das plantas, com o consequente aumento da produção, ciente de que, até 2050, será necessário aumentar em 60% o volume mundial de alimentos. É um avanço. Porém, aumentará o uso de agrotóxicos, exceto se se reverter a marcha atual.
Vivemos uma triste realidade. O veneno está na mesa de mais de 90% dos brasileiros, pois menos de 10%, e sem habitualidade, consomem alimentos orgânicos: 1) por desinformação, 2) sua pouca produção, 3) serem mais caros e 4) aparência feia comparados a similares com agrotóxicos. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Somos, com perdão verbal, vítimas do nosso desenvolvimento, pois o uso de defensivos proibidos ignora os limites da ética na preservação da saúde.
E as abelhas? Coitadas! Elas só fazem o bem (polinização, mel, própolis), mas são tratadas como inimigas. A cada semana noticia-se uma nova mortandade dos insetos, por agrotóxicos. Para Lionel Segui Gonçalves, da Faculdade de Filosofia de Ribeirão Preto (USP), especialista em abelhas, no atual ritmo, em 2035 elas estarão extintas.
A Bayer, nos EUA, tem sofrido condenações milionárias por conta dos malefícios do seu glifosato, o mesmo produto que a França acaba de banir no seu território. E o Brasil? Bem, estamos submetidos desde sempre à seguinte ordem surda e silenciosa dos fabricantes desses produtos letais: sirvam-se, o veneno está na mesa.

(IN)SEGURANÇA JURÍDICA

Conspira contra (conspirar contra soa pleonasmo, mas não é porquanto são palavras que se completam) a estabilidade de qualquer País - com reflexos em todas as áreas - a insegurança jurídica. Pior ainda quando gerada por quem deveria ser o guardião da Constituição e das leis: o Supremo Tribunal Federal, instituição composta por 11 ministros, na prática cada um age como se fosse o Pretório Excelso (o todo). Ressalvo que alguns ministros, apesar do critério de nomeação, honram a toga. Exemplo, sem excluir outros: Celso de Mello, a quem - embora discorde dele sobre a prisão a partir da condenação em 2º grau - respeito, porquanto é contra por convicção.
O Direito tem suas fontes. No Brasil, a principal, seguindo a tradição romano-germânica, é a lei, seguida da jurisprudência, dos costumes e da doutrina. Não faz muito, surgiu o Direito alternativo - ignorando as quatro fontes -, segundo o qual juízes colocavam partes e advogados, quando do ajuizamento de ações, à mercê da sorte: se o feito fosse distribuído a juiz alternativo, o resultado previsível da demanda seria A; se o mesmo feito fosse distribuído a juiz não alternativo, o resultado previsível seria B.
O Direito alternativo não vingou. Hoje, a insegurança jurídica é gerada pelo STF. Na raiz do mal da instituição está o critério de escolha dos seus ministros - político, não técnico. Lewandowski, Toffoli, Gilmar, Marco Aurélio são crias desse critério, embora constitucional. Mas o pior é que não vislumbro perspectiva de mudança, pois a OAB, que deveria empunhar a bandeira da mudança, faz ouvidos moucos. É que, quem a preside (Cláudio Lamachia atualmente), embora negue, aspira o cargo vitalício.
Em Brasília, na frente do suntuoso prédio do STF - que tem mais de 3.000 servidores (+ ou - 300 por ministro), entre eles, 12 capinhas, 19 jornalistas, 24 copeiros, 27 garçons, 58 motoristas (isso é um deboche!), alguns para desnecessário trabalho (capinhas) - há uma senhora de pedra com venda nos olhos cobrindo também suas orelhas. Só assim não pôde ver nem ouvir Barroso atacar Gilmar - ipsis litteris: “Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia.”
A confusão criada por Marco Aurélio no dia 19/12/2018, minutos antes do recesso do Poder Judiciário, ao deferir liminar a uma ação do PCdoB, que colocaria na rua 260 mil presidiários, muitos de alta periculosidade - mais 19 da Lava-Jato, Lula o mais famoso -, mostra que o STF atual é uma Torre de Babel. No caso, o ministro ignorou decisão anterior do Pleno sobre o tema. Com isso, Marco Aurélio mostrou que a decisão de um só ministro, posterior, vale mais que decisão anterior dos 11 ministros. Menos mal que Toffoli (farinha do mesmo saco, novo anjo bom) cassou a liminar do colega ‘libertário’.
José Saramago, escritor português, em “Da Justiça à Democracia Passando Pelos Sinos”, conta que um camponês, não sendo encarregado de tocar habitualmente o sino, o fez soar, ao que seus vizinhos, surpresos, lhe perguntaram quem era o sineiro e quem era o morto, respondendo: “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”. Inconformados, insistiram: “Mas então não morreu ninguém?”, ao que respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente; toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta”. O camponês somos nós; a Justiça do camponês é o nosso STF.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

MAIS MÉDICOS

O programa Mais Médicos, criado por Dilma Rousseff, primou por ajudar Cuba e atender aos municípios sem ou com precária assistência médica. Na época, escrevi que, apesar das restrições ao programa dada sua natureza protecionista (para Cuba) e espoliativa (dos médicos), para as comunidades desassistidas de médicos desde sempre, um jaleco já ajudaria a melhorar a vida de dessas populações. Passados alguns anos, a experiência está aprovada. Ponto, portanto, para a ex-presidente do Brasil. Isso, no entanto, não tira o caráter malcheiroso das contratações, como, por exemplo, a desproporção paga por nós, contribuintes brasileiros, às partes contratadas: para Cuba, 70%; para os médicos, 30%. Quer dizer, bom para Cuba, espoliativo para os médicos cubanos atuando no exterior.
Agora, sem prévia notificação, Cuba, como retaliação às manifestações de Jair Bolsonaro, futuro presidente da República, no sentido de rever o contrato, rescindiu o convênio sem pré-aviso. O impacto negativo no Brasil, é inegável. Raul Castro, ao retirar 8.000 médicos de uma hora para outra, deixa as comunidades desatendidas, as quais se voltam contra o governo. Em resposta à retaliação, o Ministério da Saúde agiu com rapidez para solucionar o impasse, fazendo contratações emergenciais. Por outro lado, creio que a maioria desses médicos gostaria de ficar aqui, mas poucos desafiarão o poderoso Raul Castro, eleito, como se sabe, à ‘unanimidade’ por Fidel Castro. Eles, os médicos, sabem o que aconteceu com os dois boxeadores que abandonaram sua delegação durante os Jogos Pan-Americanos, no Brasil. Ordem de Havana, correta ou não, os cubanos não discutem; cumprem. Lá não existe o devido processo legal, tão reclamado aqui mesmo sendo respeitado, e os juízes da ilha são subservientes ao governo.
Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux são os boxeadores que, nos Jogos Pan-Americanos, pediram asilo ao Brasil. Porém, ao invés de amparo, foram deportados por Tarso Genro, então ministro da Justiça. Foi no mesmo governo em que Cesare Battisti (do Proletários Armados pelo Comunismo), condenado na Itália à prisão perpétua pela prática de quatro homicídios em sua Pátria, aqui se homiziou. Na ocasião, a Itália pediu sua extradição, que foi deferida pelo STF. Lula, no entanto, que tinha a palavra final sobre o caso, no último dia de seu mandato concedeu-lhe asilo por considera-lo “perseguido político”. Um escândalo! O Brasil (leia-se Lula) albergou um facínora ao mesmo tempo em que jogou (leia-se Tarso) aos leões dois inocentes.
Bem, para a retirada de médicos cubanos, a solução que o governo da União está tomando - correta, diga-se - é emergencial. Uma alternativa, justa a meu sentir, sem excluir outras, para atender aos rincões eternamente desassistidos na área da saúde, seria exigir a prestação de serviço do médico que cursou faculdade pública ou com financiamento público. Exsurge, pois, da crise Brasil x Cuba, uma questão positiva: a discussão acerca da contrapartida que médicos, engenheiros, advogados etc deveriam prestar em tendo cursado faculdade às expensas do erário público.
Santa Rosa também têm médicos cubanos. Como todos, submetidos ao rodízio, isto é, depois de alguns anos aqui eram substituídos por conterrâneos. Um, que alugava imóvel através da Imobiliária Bernardi, contou ao Sandro Bernardi que somente depois de morar no Brasil conheceu as mazelas da sua terra e seus líderes. Chorou ao dizer que aqui descobriu a face - oculta para os cubanos desvinculados do poder - de Fidel, Raul, Che etc. É que lá só funciona a mídia oficial: livre para divulgar tudo, desde que seja para elogiar o regime e os feitos - para o bem do povo - dos seus comandantes.